Domingo, Dezembro 30, 2007

Primeiras notícias

Este é o email que mandei aos meus amigos ontem, o primeiro desde a chegada a Madri:

Finalmente conseguimos uma internet aqui e aproveito pra mandar as primeiras notícias de Madri. A internet está sendo um problema sério. Para adquirir os serviços mais baratos temos que nos comprometer a pagar por um ano e meio. O mais em conta por sete meses sai por uns 32 euros por mes, mas a operadora leva no minimo 40 dias para instalar! E eu que reclamava do Vírtua! Estou na internet porque conseguimos um serviço wi-fi que custa três euros por 24 horas, mas é muito ruinzinho. Só abre meia dúzia de sites. Skype, por exemplo, nem pensar.

Nosso vôo foi ótimo, mas para as malas nem tanto. Despachamos quatro malas no Rio. Três delas chegaram a Madri algumas horas depois de nós. Tivemos de voltar ao aeroporto para buscá-las e trazê-las de metrô para economizar o dinheiro do táxi. O problema é que do aeroporto até a casa onde alugamos o quarto havia duas conexões e a maioria das escadas rolantes estavam paradas. Nunca subi tanta escada na vida carregando peso! Acabou que foi até divertido. A única coisa que não anda divertida no metrô aqui é que os funcionários da limpeza estão em greve há 12 dias! O metrô está nojento. Temos até preferido os ônibus. Além do mais, de ônibus dá para ver melhor a vista.

Esperando as malas na esteira do aeroporto

A quarta mala só foi chegar no dia seguinte. A empresa entregou.

A casa onde estamos é muito legal. É um apartamento bem grande, num lugar supercentral. Estamos bem no meio do buxixo! O unico problema é que o prédio é um pouco velho, por isso não tem elevador. E o nosso apartamento fica no quarto andar! Vamos ficar magrinhos subindo e descendo tanta escada. Nosso quarto é bonitinho e, se não é grande, também nao chega a ser pequeno demais. A cama é boa de largura, só é um pouco curta no comprimento. Ou fico com o pé pra fora ou bato a cabeça na parede! Hoje compramos um edredom nórdico que o pessoal prometeu que serve pra qualquer frio. Às vezes os administradores do edifício desligam o aquecimento de manhã, então o edredom vai ser bastante útil.

Posando ao lado de uma árvore de Natal. Nossa rua, a Calle Tudescos, está bem atrás de nós

Com as roupas que trouxe estou sobrevivendo bem ao frio. Está fazendo entre seis e oito graus. A cidade está bastante iluminada por causa do Natal. Agora mesmo tem um cara aqui na rua tocando Jingle Bells no saxofone há horas. Se não estivesse tão frio acho que descia e dava com o saxofone na cabeça dele.

Sexta-feira, Dezembro 14, 2007

Governo do Estado anuncia medidas para coibir violência nos estádios

Enfim uma boa notícia na internet. Espero que essas idéias sejam realmente implantadas. Lugar de delinqüente é na cadeia e não em estádio.

Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

Carrascos unidos

Em 28 de novembro enviei o seguinte email à Rio Ônibus:

Gostaria de fazer uma reclamação contra o motorista que estava ao volante do veículo XXXXX (empresa Amigos Unidos) da linha XXX nesta quarta-feira, dia 28 de novembro, e que passou às 10h20 pela Praia de Botafogo. Eu estava dentro do veículo quando, um pouco antes de chegar ao ponto em frente ao Edifício Argentina, puxei as cordinhas dos dois lados, sinalizando para que o motorista parasse no ponto. No entanto, ele passou direto. Pedi então para que parasse porque eu havia feito sinal. Mas o motorista me ignorou e só foi parar no ponto seguinte, cerca de 250 metros à frente. Quando eu disse que enviaria uma reclamação para a empresa, ele zombou de mim. Mostrem-me que o motorista estava enganado e lhe dêem ao menos uma advertência por tamanha falta de respeito com o cliente que, em último caso, é o responsável pelo salário que ele recebe. Espero obter resposta à minha reclamação. Obrigado, Daniel Kaz

Dez dias depois, recebi a seguinte resposta:

QUEREMOS INFORMAR QUE O MOTORISTA FOI IDENTIFICADO E ENCAMINHADO AO SETOR DE RECURSOS HUMANO PARA CURSO E APERFEIÇOAMENTO PROFISSIONAL E AO SETOR DE TRÁFEGO ONDE RECEBEU AS DEVIDAS PUNIÇÕES.

"Devidas punições"? O único que posso imaginar é um sujeito com uma máscara preta dando chicotadas no motorista...
Sei não, mas isso tá me cheirando a resposta automática. Pelo menos tiveram a preocupação de difarçar esperando uns dez dias antes de enviá-la.

Sexta-feira, Novembro 30, 2007

A fronteira

Começo o texto com algo que não é novidade para ninguém. No Rio vive-se numa cidade partida. De um lado o morro, do outro o asfalto. De um lado os ricos e a classe média, do outro os pobres. Não deve ser exclusividade nossa. Aposto que é assim no mundo todo. Na Europa são os locais e os imigrantes. Nos Estados Unidos são os brancos e os negros. Pelo menos foi o que eu vi quando morei seis meses na Virgínia. Enquanto lá a divisão parecia ser muito mais racial, aqui ela é social. Lá os brancos usavam camisas de flanela, calças que pareciam bocas-de-sino, tênis de skatista. Os negros vestiam camisas de grifes como Tommy Hilfiger, calças no meio do joelho e tênis de jogador de basquete. Brancos ouviam rock. Negros curtiam rap. A divisão ficou clara para mim no dia em que me perguntaram na escola: "você anda com os brancos ou os negros?". Fiquei tão surpreso com a pergunta que só me ocorreu responder a verdade: "com os brancos...".

A escola era o espaço comum lá, diferentemente daqui, onde a divisão social não perdoou a educação. O único espaço comum que existe no Rio é a praia. Mas se os dois grupos dividem o mesmo espaço na areia não significa que elas convivem na praia. Ficou claro para mim no último fim de semana.

Chegamos eu e três amigos a Ipanema, no meu ponto preferido de sempre. Encontramos num clarão e nos sentamos. Logo percebi que havíamos escolhido o lugar errado. Estávamos muito próximos de um grupo de seis amigos, três homens e três mulheres. Pela indumentária, o jeito de falar, a altura em que falavam, as coisas que diziam, pude perceber que não moravam por ali. Certamente vinham do subúrbio ou de alguma favela da redondeza.

Os rapazes eram parecidos: morenos de maior ou menor graduação de cor de pele, com os cabelos curtos, vestindo bermudas de tactel. As moças eram diferentes: duas eram mais claras e obesas. A outra tinha traços rudes no rosto e um corpo bem definido, de uma beleza agressiva. As três usavam biquínis curtos.

Toda frase que diziam tinha pelo menos um palavrão. Variavam pouco as palavras, apoiando-se em vocativos como "mané" e "rapá" e apostos como "na moral". A moça mais agressiva só repetia: "vamo beber hoje!". Falavam alto, de modo que todas as pessoas ao redor podiam escutá-los. Esperavam algum deles se distrair para em seguida jogar-lhe areia. Brincadeiras como as que eu fazia quando criança.

Senti-me culpado por não querer que estivessem ali. Ao olhar em volta, desconfiei que não era o único. Várias pessoas olhavam para eles de cara feia. Pensei seriamente em quem era mais feliz. Aquelas pessoas embebedando-se, falando palavrões só porque não sabiam falar de outra maneira e fazendo brincadeiras infantilmente agressivas ou eu, lendo o caderno Mais da Folha de São Paulo, debaixo do meu guarda-sol.

Vai ver cada um é mesmo feliz à sua maneira. Certamente eles estavam achando o meu domingo de sol muito sem graça. Nunca descobriram o prazer da leitura, da mesma maneira que eu perdi o prazer das brincadeiras infantis na praia. Nunca descobriram a graça de se selecionar as palavras, da mesma forma que me esqueci porque é divertido falar palavrões sem necessidade. Descobriram a beleza de ver suas mulheres usando biquínis curtos que apertam as banhas e as fazem saltar para fora, assim como desenvolvi a ojeriza às obesas que se vestem como gostosas.

Decidi dar um exemplo de tolerância e assumi-los como apenas mais seis banhistas, que merecem estar ali tanto quanto os outros.

Mas confesso que emiti um suspiro de alívio - e logo mais de pena - quando percebi que eles haviam ido embora, deixando na areia um rastro de latas de cerveja, caixas de cigarro e pães comidos pela metade, que os pombos disputavam a bicadas.

Segunda-feira, Novembro 26, 2007

Para guardar pelos próximos oito meses

Cheguei ao Maracanã mais tarde do que de costume. Não estava a fim de perder o lindo domingo de sol. Acabei não encontrando o amigo com quem tinha combinado na coluna 43 do estádio, nas cadeiras amarelas do lado da torcida do Flamengo. Sem problemas. Neste campeonato descobri que o prazer de se ir a um jogo do Flamengo sozinho é quase o mesmo de ir com um amigo. Sempre há alguém do lado com quem comentar um lance. Na hora de pular para comemorar, a massa é como se fosse uma só.

Arranjei um cantinho onde ficava com um pé na escada e outro em cima de uma cadeira. Neste campeonato ninguém tem ficado sentado durante os jogos na torcida do Flamengo. Ao contrário do que normalmente acontece, o meu time atacou no primeiro tempo de frente para sua torcida. Zero a zero chato, sem gols. No intervalo, encontrei meu amigo na fileira 44. Sugeri mudar para o outro lado, para onde o Flamengo atacaria no segundo tempo. Ele não quis. Fui sozinho mesmo.

Arrumei um lugar ao lado de um negão de camisa regata e três mulheres que pareciam turistas, tiravam foto de tudo e todos. Desta vez fiquei sentado, ao lado da escada. Quando vinha um lance de perigo eu logo pulava para a escada. Para se classificar à Libertadores, o Flamengo precisava vencer o Atlético-PR e torcer por uma derrota do Cruzeiro para o Sport na Ilha do Retiro. Todos achávamos que o Flamengo venceria o Atlético, mas não eu não acreditava na vitória do Sport.

Aos 4 minutos, Renato Augusto tabelou com Souza e fez 1 a 0 Flamengo. A comemoração do gol nunca é a mesma do que quando se está com amigos. Não importa. Para mim foi emocionante. O gol foi a senha para o início da cantoria. Pulei muito, enquanto cantava as músicas da torcida. Alguns minutos depois, gol de Juan, impedido. Na hora nem comemorei, achando que o juiz marcaria o impedimento. Quando o vi apontando para o meio-de-campo foi uma comemoração meio chocha. O momento da explosão já tinha passado.

A cada grito de "Suderj informa" nos auto-falantes torcia para ser gol do Sport. Mas os gols estavam saindo todos do jogo do Santos contra o Paraná. 1 a 0 Paraná. 2 a 0 Paraná. 1 a 2 Santos. 2 a 2 Santos. O jogo terminaria 3 a 2 Santos. Até que o locutor gritou "Suderj informa" com uma voz transformada. E antes mesmo que aparecesse o placar no telão ele disse, lentamente, prolongando os Os: "Gooool do Sport!".

Comemorei mais do que comemoraria um terceiro gol do Flamengo. "Vamos pra Libertadores hoje. Vamos pra Libertadores hoje!". O cara da frente levantou a mão para o ar espalmada e eu o cumprimentei com um tapa. Repeti o ritual com seu filho adolescente. Com o gordão sem camisa atrás de mim foi a mesma coisa. Os turistas ao lado estavam muito ocupados tirando fotos. E eu repetia, quase incredulamente: "Vamos pra Libertadores hoje, vamos pra Libertadores hoje!".

Aos 30 minutos do segundo tempo, o telão já anunciava: "Mengão na Libertadores 2008". Preferi esperar o fim do jogo. A partida acabou, o sistema de auto-falante começou a tocar o hino do Flamengo, mas eu só relaxei quando o locutor interrompeu o hino para anunciar: "final de jogo: Sport 1 a 0".

Aí sim cantei o hino mais umas três ou quatro vezes. Fiquei vários minutos após o fim da partida, sozinho, rodando a camisa no ar e gritando: "uma vez Flamengo, sempre Flamengo".

A festa continuou no caminho para o metrô e dentro do metrô e até chegar ao Baixo Gávea. Comemorei muito porque essa classificação valeu quase como a conquista de um campeonato. E mais ainda porque sei que vou torcer à distância na Libertadores de 2008, "assistindo" aos jogos de madrugada pela internet e, com muita sorte, pela televisão.

Segunda-feira, Novembro 19, 2007

No lucro

Turista morre atropelado depois de ser assaltado em Ipanema



Há exatamente um ano, no feriado de Finados, eu estava andando pela Francisco Otaviano quando vi um crioulo de bermuda numa bicicleta puxando o cordão do pescoço de um velhinho gringo. Fui tentar ajudar e me dei a mal: acabei com um nariz quebrado. Na época fiquei inconformado, mas agora, lendo a notícia do link acima, vejo que poderia ter sido pior.

Não adianta reagir ou tentar ajudar os outros nessas situações. Eu nunca vou conseguir desarmar o ladrão ou mesmo alcançá-lo na corrida. Ele está alerta, pronto para reagir. Pode sair correndo no meio dos carros que não tem nada a perder. O máximo que perde é sua vida de merda, mas isso também não é grande coisa. Ele está acostumado àquele tipo de situação. Não é como eu, que passo dia num escritório, sentado na frente do computador. Ele passa o dia assaltando e correndo da polícia. É difícil aceitar, mas a melhor coisa nessas horas é não reagir. O negócio é lembrar que, ao contrário do ladrão, tenho muito mais a perder do que um cordãozinho de ouro.

Quarta-feira, Novembro 07, 2007

Dia surreal

Recebi o salário. Um valor em notas de 50 reais e o resto em cheque. Fui ao banco depositar. Entrei no saguão da agência. De cada lado, duas fileiras de máquina - as da esquerda para saque, as da direita para depósito. No centro, uma mesa de madeira com envelopes para depósito. Ponho o dinheiro dentro de um envelope e minha carteira e o cheque sobre a mesa. Aproxima-se um homem com aparência de 60 anos. Mais tarde eu viria a saber que ele tem 40. "É que ele tem cara de acabado mesmo", diria o delegado. Lembro-me de ele estar vestindo camisa azul e ter cabelo branco. Não me recordo de usar gravata, apesar de o inspetor de polícia garantir que sim.

O homem me pediu que escrevesse seu nome no envelope para depósito. "Carlos Alberto Souza", disse. Pensei em perguntar porque ele mesmo não escrevia. Talvez fosse analfabeto, pensei, apesar de ele não ter aparência de analfabeto. Talvez esteja sem óculos, me convenci.

Com seu nome escrito no envelope, passou por trás de mim e parou ao meu lado. Estendeu o braço e pediu emprestada a caneta que eu usava. Era uma daquelas canetas de banco, que sempre falha e fica presa a uma corrente que mal se estica. Achei-o inconveniente. Um velho inconveniente, mas ainda inofensivo. Percebi seu jeito nervoso, parecia não saber o que fazer direito com as mãos. Logo me cutucou. "Seu dinheiro caiu no chão". Voltei meus olhos para baixo e estranhei as duas notas de dois reais sobre meu pé. Em primeiro lugar porque eu não tinha dinheiro no bolso. E como minha carteira estava o tempo todo em cima da mesa, não havia maneira de as notas caírem de dentro dela sem que eu percebesse.

Enquanto me abaixei para pegar as notas, deixei o envelope com o dinheiro, o cheque e a carteira sobre a mesa. Estavam ao alcance da minha mão, mas também ao alcance da mão do homem.

Quando já estava quase pegando as notas, senti um vulto passar por trás de mim e se jogar sobre o homem. Me assustei com os gritos: "ele tá te roubando, ele tá te roubando!". Em uma fração de segundo, entendi que era um golpe. O calor subiu às minhas têmporas, ao mesmo tempo em que eu, instintivamente, peguei os dois envelopes sobre a mesa, minha carteira e o cheque, enquanto gritava: "Ele tá me roubando, ele tá me roubando!", numa macaquice do que dissera o office-boy. O homem ainda tentou puxar um dos envelopes, que acabou se rasgando. Só tinha notas de dois e cinco reais, talvez uma de 50. Reparei que o nome Carlos Alberto Souza, escrito por mim, não estava ali. No outro envelope, contei o dinheiro. XXX reais. Era o meu dinheiro.
Enquanto o rapaz dava uma mata-leão no velho e os seguranças engravatados tentavam se aproximar com ar aparvalhado, de quem não sabia como proceder, fui ao caixa para enfim despositar o dinheiro. Só depois de ter certeza que o meu dinheiro estava dentro da máquina do banco tentaria entender o que acontecera.

Enquanto apertava dezenas de botões e inseria dúzias de senhas na maquininha, podia ouvir o rapaz gritando: "Vou te enfiar a porrada, seu safado. Você tentou me roubar!". Os seguranças apartavam o rapaz, mas ele voltava a investir sobre o velho, como um touro nervoso, porém com punhos cerrados.

Andrete tinha poucos meses de idade a mais do que eu. Depois, na sala do delegado Pederneiras, senti curiosidade de perguntar de onde sua mãe havia tirado esse nome. Fiz as contas de sua idade, imaginando se em 1979 o piloto Mario Andretti já corria na Fórmula Indy. Achei improvável que seu pai fosse tão fã de automobilismo.
Ao contrário do piloto Andretti, o office-boy Andrete era negro. Mas de um tom de negritude que nós, brasileiros, não chamaríamos de crioulo, mas sim de moreninho. Tinha o rosto redondo, os olhos saltados para fora, o cabelo raspado. Usava camiseta branca e uma mochila preta como a que a maioria dos office-boys usa.

Quando terminei os depósitos, o inspetor Café já havia chegado à agência. De camisa azul que ressaltava o contorno da barriga de chope, cabelos brancos e olhos profundamente azuis, mexia-se como um boneco, com os braços curtos paralelos ao corpo. Perguntou aos envolvidos na confusão o que se passava. De tão nervoso, Andrete não conseguia articular as palavras. Entre torrentes de sílabas, contou que aquele homem já havia tentado roubá-lo. E agora aplicaria o mesmo golpe em mim se ele não tivesse impedido. Fiquei na dúvida se deveria entrar na viatura e seguir para a delegacia. Imaginei o que viria a seguir. Horas numa sala prestando depoimento, talvez até uma acareação com o preso, depoimento no tribunal seis meses depois, mais horas de espera num corredor de fórum. Pensei no dever cívico de contribuir para a condenação de um ladrão. Para quê, se no dia seguinte ele já estaria na rua novamente? Nem cheguei a ser roubado, foi apenas uma tentativa. Imagina se vão segurá-lo no xadrez por isso?

- Será que eu preciso ir à delegacia? - perguntei ao inspetor. "Ele ia te roubar, ele ia te roubar!", respondeu Andrete olhando fixamente para mim. Até então não estava convencido de que o office-boy era o herói da história. Se eu o visse na rua de bermuda e sem camisa, agressivo daquela forma, certamente estremeceria. Guardaria o relógio no bolso e seguraria a carteira. Talvez até atravessasse a rua. Mas me convenci de que ele era uma vítima como quase fui. Resolvi ir à delegacia. Sem essa de dever cívico. Achei que dessa forma estaria ajudando Andrete.

Na frente da viatura, uma Blazer com a cor da Polícia Civil e toda arranhada, um homem de camisa amarela aberta até o meio da barriga de chope empunhava um fuzil. Na caçamba, separado do banco de trás por um vidro preto, já estava o golpista. Andrete sentou no banco de trás, ao lado da janela esquerda, eu fiquei espremido no meio e um terceiro policial ocupou a janela da direita. Uma vez dentro da viatura, que corria entre os carros do Centro da cidade com a sirene ligada, tentei formar melhor meu juízo sobre Andrete. Quanto ao homem na caçamba, já não me restava dúvida de que estava tentando me dar um golpe.

Andrete me contou sua história inacreditável. Há cerca de dois anos, este mesmo homem tentara o mesmo golpe com ele. Jogou uma nota de dois reais sobre seu pé e disse a frase: "Seu dinheiro caiu no chão". Escolado por dez anos trabalhando como office-boy na rua, Andrete se abaixou, mas não tirou os olhos do envelope com o dinheiro. Viu claramente quando o homem tentou trocar um envelope cheio de papel pelo de Andrete. Com violência, o office-boy deu um soco no rosto do homem. Os seguranças da agência pensaram que Andrete era o ladrão e o homem era a vítima. Seguraram o office-boy e deixaram o golpista ir. Se não fosse por um outro office-boy, que seguiu o homem na rua e convenceu um PM a detê-lo e levá-lo para a delegacia, ele teria escapado ileso. Andrete me contou essa história umas cinco vezes nas quatro horas em que permanecemos na delegacia, sempre na mesma ordem. Eu já podia adivinhar o que ele diria depois de "e o segurança deixou o cara se evadir...".

- Mas um office-boy seguiu ele e chamou o PM. Aí levaram todo mundo pra delegacia. Marcos Gomes Alguma Coisa era o nome do cara - lembrava Andrete, com riqueza de detalhes. A memória prodigiosa do office-boy seria responsável pelos parabéns que o inspetor Café ouviria do delegado Pederneiras.

Depois de um breve momento de indefinição por parte de Café sobre onde estacionaria a viatura e por onde faria a entrada do ladrão - "ele não pode entrar pela frente da delegacia, ora", dizia para o policial de camisa amarela -, finalmente descemos do carro. O homem, na caçamba, ainda tentava me convencer a desistir de seguir em frente. "Não ouve esse garoto, não, deixa isso pra lá", dizia, logo antes de ser interrompido com um grito do policial de camisa amarela. "Cala a boca, porra!".

Eu não sabia direito onde estava, achava que era na Rua do Senado. Só depois fui descobrir que era na Gomes Freire. Durante o percurso até a delegacia houve uma dúvida de Café se o banco estava sob jurisdição da 1a ou da 15a DP. Decidiram nos levar para a 15a. A entrada era como de qualquer delegacia legal. Um rapaz magrelo de camisa branca perguntou a mim e Andrete se precisávamos de alguma coisa. "Viemos com aquela viatura, estamos esperando o policial", disse.

Café nos chamou para uma mesa atrás do balcão. Uns cinco policiais estavam ao seu lado. Na cadeira, sentado, um homem magro, baixo, com o cabelo liso e um nariz proeminente. Era o único de terno - preto - e gravata, listrada de vermelho e preto. A roupa parecia ser de um número maior que o dele. Do bolso, pendia um chaveiro com um escudo do Flamengo. O delegado Pederneiras falava alto, de forma enérgica, como se toda a delegacia precisasse ouvi-lo naquele momento.

Pediram que eu voltasse ao balcão e ouviram Andrete em separado. Eu ainda tremia muito e me irritava por não conseguir me controlar. Tentava escolher as palavras com as quais descreveria o que havia acontecido. Em seguida, me chamaram. Tive de engolir em seco para impedir as lágrimas de chegarem aos olhos. Experimentei uma sensação de opressão semelhante à imposta pelos garotos mais fortes no pátio do colégio na infância. Enfim consegui terminar de contar o que se passara.

O delegado já tinha formado sua opinião. Autuaria o homem em flagrante. Saiu à cata de um escrivão. Tiago estava no almoço. O seu substituto ainda não havia chegado para trabalhar. Pederneiras se virou para Ubiraci, que estava sentado à frente do computador na mesa ao lado, e disse: "você não é escrivão, mas escreve legal. Vai colher os depoimentos dos dois!".

Ubiraci pareceu assustado com a notícia. O delegado passou a lhe relatar os fatos, exatamente como eu havia dito. Alto, gordo, de gestos lentos, Ubiraci se assemelhava a um urso. Quando sorria, já na sala do delegado, era possível ver seu aparelho dentário, que lhe davam uma aparência ingênua. De boca fechada, no entanto, passaria por intimidador.

Eu, Andrete e os policiais entramos na sala do delegado. Sobre a mesa, uma bandeira do Flamengo. Na parede, mais um ornamento lembrando o clube rubro-negro. Na mesa, muitos papéis e livros de Direito. Sentei-me na cadeira que ficava bem na passagem para o outro lado da mesa, onde Ubiraci se instalou. Pederneiras me pediu que botasse a cadeira uns três passos para trás. "Essa sala é muito pequena!", reclamou, enquanto eu olhava para um espaço vazio mal aproveitado entre a cadeira do delegado e a parede.

Naquele momento iniciou-se um drama que duraria quase quatro horas. Ubiraci podia até escrever "legal", como dissera o delegado, mas era lento como um paquiderme. E tinha dificuldades para fazer contas aritméticas, como eu descobriria depois.
O primeiro passo era colher o depoimento do preso. Ubiraci foi à carceiragem e nos deixou esperando por mais de 15 minutos na sala do delegado. Andrete me contou um pouco sobre sua vida. Mora em Caxias com a mãe, um irmão e uma irmã. Estudou até a sexta série, mas está cursando um supletivo. Trabalha como office-boy em Botafogo, numa firma de assessoria de imprensa da qual achei que já tinha ouvido falar. Disse que precisaríamos trocar telefones. Achei estranho e disse "claro", com a intonação de quem diz "sem chance".

Eu já estava novamente em pé quando Ubiraci voltou com o depoimento do preso, uma folha com sua ficha corrida e uma carteira, onde havia um maço grande de notas - a maioria de dois reais. Ubiraci espalhou o dinheiro pela mesa, numa divisão que não parecia fazer sentido. Havia vários bolos de notas de dois reais, um bolo de notas de 5 e outro de 50. Contou várias vezes a quantidade de notas de cada valor e chegou ao cálculo final: 601 reais.

O nome que constava na ficha do preso era João Carlos da Silva. Estranhei, já que Andrete havia me contado umas cinco vezes que o cara se chamava Marcos Gomes Alguma Coisa. Na ficha, constava apenas um registro, de uma tentativa de furto mediante fraude dentro do banco. O mesmo crime no qual o delegado Pederneiras havia qualificado o homem desta vez, consultando um exemplar do Código Penal sobre a mesa.

"Agora é a vez dele", disse Ubiraci, apontando para Andrete. Começou a colher os dados do office-boy. Foi quando Café e o policial de camisa amarela - Eider, acho que era o nome dele - entraram na sala. "E aí, o que vão fazer com a cara?". "Vamos autuar em flagrante", respondeu Ubiraci. "Encontraram subsídios para isso?", perguntou Café, com um riso irônico.

Ubiraci decidiu colher o depoimento de Café primeiro. Apagou os dados de Andrete da tela e começou tudo de novo. Não contive uma bufada de insatisfação.

Enquanto Café contava o que havia acontecido, Andrete nos alertava para mais uma coincidência que até então eu ignorava. O homem tentou roubá-lo em 2005 na mesma agência que desta vez e foram levados para a mesma delegacia - a 15a DP. Não me lembro quem foi que levantou suspeita sobre a ficha de João Carlos da Silva. Ele havia sido detido pelo mesmo crime, porém em 2007, e fôra autuado na 6a DP, na Cidade Nova. Um dos policiais pegou o rádio: "puxa pelo nome da vítima: Andrete". Daí a alguns minutos a voz no rádio respondia: "Marcos Gomes Trindade é o nome do preso. Tem uma ocorrência registrada aqui mesmo em 2005".

A voz no rádio logo se materializou na sala. Um homem branco, meio ruivo, de cavanhaque, segurava umas folhas de papel na mão e dava a notícia ao delegado Pederneiras.
- Tá aqui, doutor. Ele tem dois mandados de prisão.
- Pendentes?!
- Sim, dois mandados de prisão"
- Pendentes?!

O delegado parecia não acreditar na sorte. Café, o mesmo inspetor que minutos antes havia ironizado a prisão em flagrante, foi o primeiro a se manifestar. "Temos que comunicar o RCA! Preciso de uma cópia desse flagrante!". O clima entre os policiais era de festa. Andrete sorria. Eu não continha o espanto.

- Menos um ingresso na torcida do Flamengo no jogo de domingo - disse o delegado.
- Pô, doutor, logo um flamenguista dizendo isso? - contestei.
- É que a torcida do Flamengo é maior em todas as camadas sociais, desde o vagabundo até o presidente. Ou melhor, até o dono do mundo!

Alheio à discussão futebolística, Andrete me revelou: "Sabia que não devia ter deixado esse desgraçado se dar bem assim. Eu o reconheci quando ele entrou na agência. Minha primeira reação foi ir embora. Quando ele jogou as notas de dinheiro no seu pé, avisei o segurança e decidi ficar. Quando vi que ele estava pegando seu envelope, pulei pra cima dele".

Não restava mais dúvida sobre quem era o herói da história.

Café terminou seu depoimento e o assinou. Ao deixar a sala, ele e o colega foram efusivamente cumprimentados por Pederneiras. "Parabéns pela prisão!". Andrete balançou a cabeça de um lado para o outro, negativamente. Eu disse a Andrete em tom irônico: "Quero ver se você vai receber parabéns assim também".

Enfim Ubiraci começaria a pegar o depoimento de Andrete. Já estávamos há um par de horas na delegacia. Os dois telefones celulares do office-boy já haviam tocado algumas vezes. "Fernanda, avisa pra Bianca que eu tive de vir à delegacia. Lembra o cara que tentou me roubar da outra vez no banco? Ele tentou roubar outra pessoa e aí eu vim pra delegacia prestar depoimento. Sim, eu vou levar os convites. Pode deixar".

Pelo nervosismo de Andrete ao telefone, nem Fernanda e nem Bianca pareciam acreditar muito na sua história. Ubiraci lhe falou para não deixar de levar uma cópia do seu depoimento como prova. "Ninguém me perguntou se eu estava bem. Só quiseram saber se o ladrão tinha levado o dinheiro da firma", reclamou o office-boy. "Liga não, é assim mesmo", contemporizei.

- Profissão? - perguntou-lhe Ubiraci.
- Office-boy - respondeu Andrete.
- Office-boy não tem aqui.
- Tenta contínuo - sugeri.
- Põe auxiliar administrativo, deve ter aí - disse Andrete.
- Contínuo. Achei... Local de residência?
- Avenida Presidente Kennedy, 225.
- Kennedy é com um ou dois Ns?
- Onde fica isso? - interrompeu o policial de camisa amarela.
- Caxias... Gramacho.
- Ah, eu conheço esse lugar. É uma favela, um lugar sinistro, já andei muito por aquelas bandas, lá o bicho pega. Aí, se você botar esse endereço ninguém vai saber onde é. Isso é uma favela. Você mora num favelão - dizia o policial de camisa amarela, com voz de quem achava graça, embora eu não entendesse porquê.
- Não fala assim do lugar onde o cara mora - disse eu, em voz muito baixa para que os policiais ouvissem.
- Liga não, ele tem razão. Lá é sinistro mesmo - falou Andrete, resignado.
- É melhor eu botar o endereço do trabalho também - sugeriu Ubiraci.

O office-boy começou a contar novamente a história toda. Pederneiras entrou na sala reclamando: "Bira, não perde muito tempo nesses depoimentos. Já falei que a história é essa..." e repetiu em meio minuto o que o inspetor havia demorado horas para escrever.

Pederneiras contornou a mesa onde Ubiraci estava sentado e passou a mão no telefone: "Inês, tenho uma história ótima pra você. Prendemos um cara hoje que tava dando um golpe nos bancos aqui do Centro da cidade. Traz um fotógrafo que se ele sair amanhã no jornal aposto que vai aparecer um monte de vítima".

Não contive minha curiosidade.
- Doutor, qual era o jornal?
- O Dia.
- Vou comprar amanhã.

Quatro horas após chegar à delegacia, Andrete recebeu a cópia de seu termo de depoimento e se levantou para ir embora. Dei-lhe meu número de celular. "É para o caso de você precisar que alguém confirme a história pro pessoal do teu trabalho". Agradeci com um aperto de mão e um "muito obrigado pela ajuda. De verdade". Ubiraci também lhe deu os parabéns. O delegado Pederneiras já não estava por perto.

Enquanto Ubiraci colhia meu depoimento, olhei os dados de Andrete sobre a mesa. Peguei o endereço do seu trabalho. Pensei em lhe mandar um presente de Natal. Lembrei-me de quando uma menina com uniforme de escola pública encontrou meu celular que eu havia deixado cair no banco do 175-Recreio. Peguei um táxi e fui até o ponto final do ônibus, na favela do Terreirão, para que ela me devolvesse o celular. Era dezembro. Depois que fui embora, fiquei me remoendo por não ter pego seu endereço para lhe mandar um presente de Natal. "Não cometeria esse erro de novo", pensei.

Ao olhar os dados de Andrete, reparei na sua data de nascimento: 19 de novembro de 1979. "Perfeito. Vou lhe deixar um presente de aniversário na portaria do escritório".

Ubiraci enfim me entregou meu termo de depoimento. Conferi se a história estava contada da forma como eu havia dito, chequei meus dados pessoais e assinei as várias cópias. Ele me informou que eu precisaria voltar no dia seguinte para assinar outros documentos que só ficariam prontos mais tarde. Apertei sua mão e fui embora, com o estômago roncando por não ter almoçado até as 5 da tarde. Achei que o caso estava encerrado. Não estava.

Tinha meia hora que eu havia chegado ao meu escritório quando o telefone tocou.
- Daniel? É o Ubiraci. Preciso que você passe ainda hoje aqui na delegacia porque saiu uma coisa errada no seu depoimento.
- O quê?
- Lembra que eu contei o dinheiro apreendido com o preso? Então, é que eu contei as notas de dois reais como se fossem de 20.
- Como assim?
- É, eu contei errado. Tive de jogar aquele depoimento fora e preciso que você venha aqui para assinar o novo.

Minha primeira reação foi acreditar na estupidez do policial. Meia hora depois de muito ranhetar pela minha falta de sorte, deixei o escritório e peguei a Uruguaiana na direção do Largo da Carioca para retornar à delegacia. No meio do caminho, retornei uma ligação de minha mãe. Pessoa desconfiada, ela me contou algumas situações desagradáveis que já havia enfrentado com policiais corruptos e sentenciou: "Eles estão tentando te dar o golpe".

De fato, parecia pouco plausível que um policial contasse notas de dois como sendo de 20 reais. Ainda mais Ubiraci, que levou horas para contar aquele dinheiro e mais alguns minutos conferindo os valores na tela do computador. Começou a me bater o desespero. Imaginei Ubiraci ligando para o meu celular a noite toda insistindo para que eu fosse à delegacia. Se eu desligasse meu celular, ele ligaria para o telefone de casa. Sim, eles tinham o telefone da minha casa. Eles tinham meu endereço também! Poderiam ir até minha casa para tentar me dar um golpe. Mas que golpe seria? Me exporiam na frente do ladrão e tentariam vender proteção? Mudariam o valor apreendido que estava expresso no meu depoimento e ficariam com a diferença? Não se pode mesmo confiar na polícia.

Decidi não ir à delegacia. Não naquele momento. Esperaria uma outra chamada de Ubiraci. Nesse meio tempo, dentro do carro do metrô que me levava para um compromisso de trabalho ao lado da minha casa, liguei para meu primo advogado criminalista. Contei-lhe a história.
- Você tem o número da ocorrência? - ele perguntou.
- Não, não trouxe a cópia pra casa.
- Se o cara te ligar de novo, pega o número da ocorrência e me liga que eu vou lá.

Quando desliguei o telefone, já na fila para pegar o ônibus do metrô em Botafogo, uma senhora loura à minha frente puxou assunto.
- Me desculpa, mas não pude deixar de ouvir sua conversa. Cuidado com esses policiais. Tem muita malandragem no meio, infelizmente. Meu marido é da corregedoria, mas é da Polícia Federal. Ele não pode te ajudar. Vai na delegacia e diz que vai ligar pra corregedoria. Eles vão tremer de medo na hora.
- Pode deixar, meu primo advogado está vendo isso pra mim.
- Mas toma cuidado. Boa sorte.

Quando eu já estava sentado no ônibus, o telefone tocou novamente. Número restrito. Era ele.
- Alô?
- Daniel. É o Ubiraci. Você esqueceu de passar aqui.
- Err.. é que eu tenho um compromisso profissional, não tive tempo de passar aí. Mas me dá o número da ocorrência, por favor.
- Claro, é XXXX.

Tentei entender melhor a história. Argumentei que o valor apreendido não poderia estar no meu depoimento porque eu não sabia quanto o ladrão tinha. Meu depoimento diria apenas a minha versão da história. Mais tarde, meu primo me explicaria que o valor deveria estar expresso no auto de apreensão e não nos depoimentos. Me parecia improvável que o policial não soubesse disso.

- Mas você assinou o seu depoimento e o valor apreendido estava escrito lá. Não lembra?

A verdade é que eu não me lembrava ao certo de tão rápido que li o depoimento, louco para sair logo da delegacia e ir almoçar.

Providencialmente, a bateria do celular acabou. Só consegui ligar para o meu primo e passar o número da ocorrência cerca de meia hora depois. Em 15 minutos, ele retornou a ligação. "Falei com o tal do Ubiraci e acho que ele fez cagada mesmo, não é golpe não. Dá uma passada lá, assina o depoimento de novo e qualquer problema me liga".

Terminei meu compromisso de trabalho e pedi ao meu pai que me acompanhasse à delegacia para não ter de ir sozinho. Ele sugeriu que levássemos também meu primo. Quando entramos na DP, por volta das 10 da noite, eu e meu primo vestido de terno e gravata, ainda tive de ouvir:
- Ficou com medo de vir sozinho, foi?
- Não, ele é meu primo, estava aqui por perto e me deu uma carona - disfarcei.

Andrete e Café já haviam estado na delegacia e assinado seus novos depoimentos. O valor apreendido na verdade fora de 151 reais. Conferi novamente meu depoimento e assinei todas as vias. Assinei também outros documentos. Ubiraci tirou uma cópia do meu comprovante de depósito - algo que Pederneiras havia lhe dito ao menos três vezes para fazer à tarde, mas que ele havia esquecido. Apertei a mão do policial e voltei para o carro, onde meu pai nos aguardava. Já eram mais de dez da noite de um dia surreal.