Dia surrealRecebi o salário. Um valor em notas de 50 reais e o resto em cheque. Fui ao banco depositar. Entrei no saguão da agência. De cada lado, duas fileiras de máquina - as da esquerda para saque, as da direita para depósito. No centro, uma mesa de madeira com envelopes para depósito. Ponho o dinheiro dentro de um envelope e minha carteira e o cheque sobre a mesa. Aproxima-se um homem com aparência de 60 anos. Mais tarde eu viria a saber que ele tem 40. "É que ele tem cara de acabado mesmo", diria o delegado. Lembro-me de ele estar vestindo camisa azul e ter cabelo branco. Não me recordo de usar gravata, apesar de o inspetor de polícia garantir que sim.
O homem me pediu que escrevesse seu nome no envelope para depósito. "Carlos Alberto Souza", disse. Pensei em perguntar porque ele mesmo não escrevia. Talvez fosse analfabeto, pensei, apesar de ele não ter aparência de analfabeto. Talvez esteja sem óculos, me convenci.
Com seu nome escrito no envelope, passou por trás de mim e parou ao meu lado. Estendeu o braço e pediu emprestada a caneta que eu usava. Era uma daquelas canetas de banco, que sempre falha e fica presa a uma corrente que mal se estica. Achei-o inconveniente. Um velho inconveniente, mas ainda inofensivo. Percebi seu jeito nervoso, parecia não saber o que fazer direito com as mãos. Logo me cutucou. "Seu dinheiro caiu no chão". Voltei meus olhos para baixo e estranhei as duas notas de dois reais sobre meu pé. Em primeiro lugar porque eu não tinha dinheiro no bolso. E como minha carteira estava o tempo todo em cima da mesa, não havia maneira de as notas caírem de dentro dela sem que eu percebesse.
Enquanto me abaixei para pegar as notas, deixei o envelope com o dinheiro, o cheque e a carteira sobre a mesa. Estavam ao alcance da minha mão, mas também ao alcance da mão do homem.
Quando já estava quase pegando as notas, senti um vulto passar por trás de mim e se jogar sobre o homem. Me assustei com os gritos: "ele tá te roubando, ele tá te roubando!". Em uma fração de segundo, entendi que era um golpe. O calor subiu às minhas têmporas, ao mesmo tempo em que eu, instintivamente, peguei os dois envelopes sobre a mesa, minha carteira e o cheque, enquanto gritava: "Ele tá me roubando, ele tá me roubando!", numa macaquice do que dissera o office-boy. O homem ainda tentou puxar um dos envelopes, que acabou se rasgando. Só tinha notas de dois e cinco reais, talvez uma de 50. Reparei que o nome Carlos Alberto Souza, escrito por mim, não estava ali. No outro envelope, contei o dinheiro. XXX reais. Era o meu dinheiro.
Enquanto o rapaz dava uma mata-leão no velho e os seguranças engravatados tentavam se aproximar com ar aparvalhado, de quem não sabia como proceder, fui ao caixa para enfim despositar o dinheiro. Só depois de ter certeza que o meu dinheiro estava dentro da máquina do banco tentaria entender o que acontecera.
Enquanto apertava dezenas de botões e inseria dúzias de senhas na maquininha, podia ouvir o rapaz gritando: "Vou te enfiar a porrada, seu safado. Você tentou me roubar!". Os seguranças apartavam o rapaz, mas ele voltava a investir sobre o velho, como um touro nervoso, porém com punhos cerrados.
Andrete tinha poucos meses de idade a mais do que eu. Depois, na sala do delegado Pederneiras, senti curiosidade de perguntar de onde sua mãe havia tirado esse nome. Fiz as contas de sua idade, imaginando se em 1979 o piloto Mario Andretti já corria na Fórmula Indy. Achei improvável que seu pai fosse tão fã de automobilismo.
Ao contrário do piloto Andretti, o office-boy Andrete era negro. Mas de um tom de negritude que nós, brasileiros, não chamaríamos de crioulo, mas sim de moreninho. Tinha o rosto redondo, os olhos saltados para fora, o cabelo raspado. Usava camiseta branca e uma mochila preta como a que a maioria dos office-boys usa.
Quando terminei os depósitos, o inspetor Café já havia chegado à agência. De camisa azul que ressaltava o contorno da barriga de chope, cabelos brancos e olhos profundamente azuis, mexia-se como um boneco, com os braços curtos paralelos ao corpo. Perguntou aos envolvidos na confusão o que se passava. De tão nervoso, Andrete não conseguia articular as palavras. Entre torrentes de sílabas, contou que aquele homem já havia tentado roubá-lo. E agora aplicaria o mesmo golpe em mim se ele não tivesse impedido. Fiquei na dúvida se deveria entrar na viatura e seguir para a delegacia. Imaginei o que viria a seguir. Horas numa sala prestando depoimento, talvez até uma acareação com o preso, depoimento no tribunal seis meses depois, mais horas de espera num corredor de fórum. Pensei no dever cívico de contribuir para a condenação de um ladrão. Para quê, se no dia seguinte ele já estaria na rua novamente? Nem cheguei a ser roubado, foi apenas uma tentativa. Imagina se vão segurá-lo no xadrez por isso?
- Será que eu preciso ir à delegacia? - perguntei ao inspetor. "Ele ia te roubar, ele ia te roubar!", respondeu Andrete olhando fixamente para mim. Até então não estava convencido de que o office-boy era o herói da história. Se eu o visse na rua de bermuda e sem camisa, agressivo daquela forma, certamente estremeceria. Guardaria o relógio no bolso e seguraria a carteira. Talvez até atravessasse a rua. Mas me convenci de que ele era uma vítima como quase fui. Resolvi ir à delegacia. Sem essa de dever cívico. Achei que dessa forma estaria ajudando Andrete.
Na frente da viatura, uma Blazer com a cor da Polícia Civil e toda arranhada, um homem de camisa amarela aberta até o meio da barriga de chope empunhava um fuzil. Na caçamba, separado do banco de trás por um vidro preto, já estava o golpista. Andrete sentou no banco de trás, ao lado da janela esquerda, eu fiquei espremido no meio e um terceiro policial ocupou a janela da direita. Uma vez dentro da viatura, que corria entre os carros do Centro da cidade com a sirene ligada, tentei formar melhor meu juízo sobre Andrete. Quanto ao homem na caçamba, já não me restava dúvida de que estava tentando me dar um golpe.
Andrete me contou sua história inacreditável. Há cerca de dois anos, este mesmo homem tentara o mesmo golpe com ele. Jogou uma nota de dois reais sobre seu pé e disse a frase: "Seu dinheiro caiu no chão". Escolado por dez anos trabalhando como office-boy na rua, Andrete se abaixou, mas não tirou os olhos do envelope com o dinheiro. Viu claramente quando o homem tentou trocar um envelope cheio de papel pelo de Andrete. Com violência, o office-boy deu um soco no rosto do homem. Os seguranças da agência pensaram que Andrete era o ladrão e o homem era a vítima. Seguraram o office-boy e deixaram o golpista ir. Se não fosse por um outro office-boy, que seguiu o homem na rua e convenceu um PM a detê-lo e levá-lo para a delegacia, ele teria escapado ileso. Andrete me contou essa história umas cinco vezes nas quatro horas em que permanecemos na delegacia, sempre na mesma ordem. Eu já podia adivinhar o que ele diria depois de "e o segurança deixou o cara se evadir...".
- Mas um office-boy seguiu ele e chamou o PM. Aí levaram todo mundo pra delegacia. Marcos Gomes Alguma Coisa era o nome do cara - lembrava Andrete, com riqueza de detalhes. A memória prodigiosa do office-boy seria responsável pelos parabéns que o inspetor Café ouviria do delegado Pederneiras.
Depois de um breve momento de indefinição por parte de Café sobre onde estacionaria a viatura e por onde faria a entrada do ladrão - "ele não pode entrar pela frente da delegacia, ora", dizia para o policial de camisa amarela -, finalmente descemos do carro. O homem, na caçamba, ainda tentava me convencer a desistir de seguir em frente. "Não ouve esse garoto, não, deixa isso pra lá", dizia, logo antes de ser interrompido com um grito do policial de camisa amarela. "Cala a boca, porra!".
Eu não sabia direito onde estava, achava que era na Rua do Senado. Só depois fui descobrir que era na Gomes Freire. Durante o percurso até a delegacia houve uma dúvida de Café se o banco estava sob jurisdição da 1a ou da 15a DP. Decidiram nos levar para a 15a. A entrada era como de qualquer delegacia legal. Um rapaz magrelo de camisa branca perguntou a mim e Andrete se precisávamos de alguma coisa. "Viemos com aquela viatura, estamos esperando o policial", disse.
Café nos chamou para uma mesa atrás do balcão. Uns cinco policiais estavam ao seu lado. Na cadeira, sentado, um homem magro, baixo, com o cabelo liso e um nariz proeminente. Era o único de terno - preto - e gravata, listrada de vermelho e preto. A roupa parecia ser de um número maior que o dele. Do bolso, pendia um chaveiro com um escudo do Flamengo. O delegado Pederneiras falava alto, de forma enérgica, como se toda a delegacia precisasse ouvi-lo naquele momento.
Pediram que eu voltasse ao balcão e ouviram Andrete em separado. Eu ainda tremia muito e me irritava por não conseguir me controlar. Tentava escolher as palavras com as quais descreveria o que havia acontecido. Em seguida, me chamaram. Tive de engolir em seco para impedir as lágrimas de chegarem aos olhos. Experimentei uma sensação de opressão semelhante à imposta pelos garotos mais fortes no pátio do colégio na infância. Enfim consegui terminar de contar o que se passara.
O delegado já tinha formado sua opinião. Autuaria o homem em flagrante. Saiu à cata de um escrivão. Tiago estava no almoço. O seu substituto ainda não havia chegado para trabalhar. Pederneiras se virou para Ubiraci, que estava sentado à frente do computador na mesa ao lado, e disse: "você não é escrivão, mas escreve legal. Vai colher os depoimentos dos dois!".
Ubiraci pareceu assustado com a notícia. O delegado passou a lhe relatar os fatos, exatamente como eu havia dito. Alto, gordo, de gestos lentos, Ubiraci se assemelhava a um urso. Quando sorria, já na sala do delegado, era possível ver seu aparelho dentário, que lhe davam uma aparência ingênua. De boca fechada, no entanto, passaria por intimidador.
Eu, Andrete e os policiais entramos na sala do delegado. Sobre a mesa, uma bandeira do Flamengo. Na parede, mais um ornamento lembrando o clube rubro-negro. Na mesa, muitos papéis e livros de Direito. Sentei-me na cadeira que ficava bem na passagem para o outro lado da mesa, onde Ubiraci se instalou. Pederneiras me pediu que botasse a cadeira uns três passos para trás. "Essa sala é muito pequena!", reclamou, enquanto eu olhava para um espaço vazio mal aproveitado entre a cadeira do delegado e a parede.
Naquele momento iniciou-se um drama que duraria quase quatro horas. Ubiraci podia até escrever "legal", como dissera o delegado, mas era lento como um paquiderme. E tinha dificuldades para fazer contas aritméticas, como eu descobriria depois.
O primeiro passo era colher o depoimento do preso. Ubiraci foi à carceiragem e nos deixou esperando por mais de 15 minutos na sala do delegado. Andrete me contou um pouco sobre sua vida. Mora em Caxias com a mãe, um irmão e uma irmã. Estudou até a sexta série, mas está cursando um supletivo. Trabalha como office-boy em Botafogo, numa firma de assessoria de imprensa da qual achei que já tinha ouvido falar. Disse que precisaríamos trocar telefones. Achei estranho e disse "claro", com a intonação de quem diz "sem chance".
Eu já estava novamente em pé quando Ubiraci voltou com o depoimento do preso, uma folha com sua ficha corrida e uma carteira, onde havia um maço grande de notas - a maioria de dois reais. Ubiraci espalhou o dinheiro pela mesa, numa divisão que não parecia fazer sentido. Havia vários bolos de notas de dois reais, um bolo de notas de 5 e outro de 50. Contou várias vezes a quantidade de notas de cada valor e chegou ao cálculo final: 601 reais.
O nome que constava na ficha do preso era João Carlos da Silva. Estranhei, já que Andrete havia me contado umas cinco vezes que o cara se chamava Marcos Gomes Alguma Coisa. Na ficha, constava apenas um registro, de uma tentativa de furto mediante fraude dentro do banco. O mesmo crime no qual o delegado Pederneiras havia qualificado o homem desta vez, consultando um exemplar do Código Penal sobre a mesa.
"Agora é a vez dele", disse Ubiraci, apontando para Andrete. Começou a colher os dados do office-boy. Foi quando Café e o policial de camisa amarela - Eider, acho que era o nome dele - entraram na sala. "E aí, o que vão fazer com a cara?". "Vamos autuar em flagrante", respondeu Ubiraci. "Encontraram subsídios para isso?", perguntou Café, com um riso irônico.
Ubiraci decidiu colher o depoimento de Café primeiro. Apagou os dados de Andrete da tela e começou tudo de novo. Não contive uma bufada de insatisfação.
Enquanto Café contava o que havia acontecido, Andrete nos alertava para mais uma coincidência que até então eu ignorava. O homem tentou roubá-lo em 2005 na mesma agência que desta vez e foram levados para a mesma delegacia - a 15a DP. Não me lembro quem foi que levantou suspeita sobre a ficha de João Carlos da Silva. Ele havia sido detido pelo mesmo crime, porém em 2007, e fôra autuado na 6a DP, na Cidade Nova. Um dos policiais pegou o rádio: "puxa pelo nome da vítima: Andrete". Daí a alguns minutos a voz no rádio respondia: "Marcos Gomes Trindade é o nome do preso. Tem uma ocorrência registrada aqui mesmo em 2005".
A voz no rádio logo se materializou na sala. Um homem branco, meio ruivo, de cavanhaque, segurava umas folhas de papel na mão e dava a notícia ao delegado Pederneiras.
- Tá aqui, doutor. Ele tem dois mandados de prisão.
- Pendentes?!
- Sim, dois mandados de prisão"
- Pendentes?!
O delegado parecia não acreditar na sorte. Café, o mesmo inspetor que minutos antes havia ironizado a prisão em flagrante, foi o primeiro a se manifestar. "Temos que comunicar o RCA! Preciso de uma cópia desse flagrante!". O clima entre os policiais era de festa. Andrete sorria. Eu não continha o espanto.
- Menos um ingresso na torcida do Flamengo no jogo de domingo - disse o delegado.
- Pô, doutor, logo um flamenguista dizendo isso? - contestei.
- É que a torcida do Flamengo é maior em todas as camadas sociais, desde o vagabundo até o presidente. Ou melhor, até o dono do mundo!
Alheio à discussão futebolística, Andrete me revelou: "Sabia que não devia ter deixado esse desgraçado se dar bem assim. Eu o reconheci quando ele entrou na agência. Minha primeira reação foi ir embora. Quando ele jogou as notas de dinheiro no seu pé, avisei o segurança e decidi ficar. Quando vi que ele estava pegando seu envelope, pulei pra cima dele".
Não restava mais dúvida sobre quem era o herói da história.
Café terminou seu depoimento e o assinou. Ao deixar a sala, ele e o colega foram efusivamente cumprimentados por Pederneiras. "Parabéns pela prisão!". Andrete balançou a cabeça de um lado para o outro, negativamente. Eu disse a Andrete em tom irônico: "Quero ver se você vai receber parabéns assim também".
Enfim Ubiraci começaria a pegar o depoimento de Andrete. Já estávamos há um par de horas na delegacia. Os dois telefones celulares do office-boy já haviam tocado algumas vezes. "Fernanda, avisa pra Bianca que eu tive de vir à delegacia. Lembra o cara que tentou me roubar da outra vez no banco? Ele tentou roubar outra pessoa e aí eu vim pra delegacia prestar depoimento. Sim, eu vou levar os convites. Pode deixar".
Pelo nervosismo de Andrete ao telefone, nem Fernanda e nem Bianca pareciam acreditar muito na sua história. Ubiraci lhe falou para não deixar de levar uma cópia do seu depoimento como prova. "Ninguém me perguntou se eu estava bem. Só quiseram saber se o ladrão tinha levado o dinheiro da firma", reclamou o office-boy. "Liga não, é assim mesmo", contemporizei.
- Profissão? - perguntou-lhe Ubiraci.
- Office-boy - respondeu Andrete.
- Office-boy não tem aqui.
- Tenta contínuo - sugeri.
- Põe auxiliar administrativo, deve ter aí - disse Andrete.
- Contínuo. Achei... Local de residência?
- Avenida Presidente Kennedy, 225.
- Kennedy é com um ou dois Ns?
- Onde fica isso? - interrompeu o policial de camisa amarela.
- Caxias... Gramacho.
- Ah, eu conheço esse lugar. É uma favela, um lugar sinistro, já andei muito por aquelas bandas, lá o bicho pega. Aí, se você botar esse endereço ninguém vai saber onde é. Isso é uma favela. Você mora num favelão - dizia o policial de camisa amarela, com voz de quem achava graça, embora eu não entendesse porquê.
- Não fala assim do lugar onde o cara mora - disse eu, em voz muito baixa para que os policiais ouvissem.
- Liga não, ele tem razão. Lá é sinistro mesmo - falou Andrete, resignado.
- É melhor eu botar o endereço do trabalho também - sugeriu Ubiraci.
O office-boy começou a contar novamente a história toda. Pederneiras entrou na sala reclamando: "Bira, não perde muito tempo nesses depoimentos. Já falei que a história é essa..." e repetiu em meio minuto o que o inspetor havia demorado horas para escrever.
Pederneiras contornou a mesa onde Ubiraci estava sentado e passou a mão no telefone: "Inês, tenho uma história ótima pra você. Prendemos um cara hoje que tava dando um golpe nos bancos aqui do Centro da cidade. Traz um fotógrafo que se ele sair amanhã no jornal aposto que vai aparecer um monte de vítima".
Não contive minha curiosidade.
- Doutor, qual era o jornal?
- O Dia.
- Vou comprar amanhã.
Quatro horas após chegar à delegacia, Andrete recebeu a cópia de seu termo de depoimento e se levantou para ir embora. Dei-lhe meu número de celular. "É para o caso de você precisar que alguém confirme a história pro pessoal do teu trabalho". Agradeci com um aperto de mão e um "muito obrigado pela ajuda. De verdade". Ubiraci também lhe deu os parabéns. O delegado Pederneiras já não estava por perto.
Enquanto Ubiraci colhia meu depoimento, olhei os dados de Andrete sobre a mesa. Peguei o endereço do seu trabalho. Pensei em lhe mandar um presente de Natal. Lembrei-me de quando uma menina com uniforme de escola pública encontrou meu celular que eu havia deixado cair no banco do 175-Recreio. Peguei um táxi e fui até o ponto final do ônibus, na favela do Terreirão, para que ela me devolvesse o celular. Era dezembro. Depois que fui embora, fiquei me remoendo por não ter pego seu endereço para lhe mandar um presente de Natal. "Não cometeria esse erro de novo", pensei.
Ao olhar os dados de Andrete, reparei na sua data de nascimento: 19 de novembro de 1979. "Perfeito. Vou lhe deixar um presente de aniversário na portaria do escritório".
Ubiraci enfim me entregou meu termo de depoimento. Conferi se a história estava contada da forma como eu havia dito, chequei meus dados pessoais e assinei as várias cópias. Ele me informou que eu precisaria voltar no dia seguinte para assinar outros documentos que só ficariam prontos mais tarde. Apertei sua mão e fui embora, com o estômago roncando por não ter almoçado até as 5 da tarde. Achei que o caso estava encerrado. Não estava.
Tinha meia hora que eu havia chegado ao meu escritório quando o telefone tocou.
- Daniel? É o Ubiraci. Preciso que você passe ainda hoje aqui na delegacia porque saiu uma coisa errada no seu depoimento.
- O quê?
- Lembra que eu contei o dinheiro apreendido com o preso? Então, é que eu contei as notas de dois reais como se fossem de 20.
- Como assim?
- É, eu contei errado. Tive de jogar aquele depoimento fora e preciso que você venha aqui para assinar o novo.
Minha primeira reação foi acreditar na estupidez do policial. Meia hora depois de muito ranhetar pela minha falta de sorte, deixei o escritório e peguei a Uruguaiana na direção do Largo da Carioca para retornar à delegacia. No meio do caminho, retornei uma ligação de minha mãe. Pessoa desconfiada, ela me contou algumas situações desagradáveis que já havia enfrentado com policiais corruptos e sentenciou: "Eles estão tentando te dar o golpe".
De fato, parecia pouco plausível que um policial contasse notas de dois como sendo de 20 reais. Ainda mais Ubiraci, que levou horas para contar aquele dinheiro e mais alguns minutos conferindo os valores na tela do computador. Começou a me bater o desespero. Imaginei Ubiraci ligando para o meu celular a noite toda insistindo para que eu fosse à delegacia. Se eu desligasse meu celular, ele ligaria para o telefone de casa. Sim, eles tinham o telefone da minha casa. Eles tinham meu endereço também! Poderiam ir até minha casa para tentar me dar um golpe. Mas que golpe seria? Me exporiam na frente do ladrão e tentariam vender proteção? Mudariam o valor apreendido que estava expresso no meu depoimento e ficariam com a diferença? Não se pode mesmo confiar na polícia.
Decidi não ir à delegacia. Não naquele momento. Esperaria uma outra chamada de Ubiraci. Nesse meio tempo, dentro do carro do metrô que me levava para um compromisso de trabalho ao lado da minha casa, liguei para meu primo advogado criminalista. Contei-lhe a história.
- Você tem o número da ocorrência? - ele perguntou.
- Não, não trouxe a cópia pra casa.
- Se o cara te ligar de novo, pega o número da ocorrência e me liga que eu vou lá.
Quando desliguei o telefone, já na fila para pegar o ônibus do metrô em Botafogo, uma senhora loura à minha frente puxou assunto.
- Me desculpa, mas não pude deixar de ouvir sua conversa. Cuidado com esses policiais. Tem muita malandragem no meio, infelizmente. Meu marido é da corregedoria, mas é da Polícia Federal. Ele não pode te ajudar. Vai na delegacia e diz que vai ligar pra corregedoria. Eles vão tremer de medo na hora.
- Pode deixar, meu primo advogado está vendo isso pra mim.
- Mas toma cuidado. Boa sorte.
Quando eu já estava sentado no ônibus, o telefone tocou novamente. Número restrito. Era ele.
- Alô?
- Daniel. É o Ubiraci. Você esqueceu de passar aqui.
- Err.. é que eu tenho um compromisso profissional, não tive tempo de passar aí. Mas me dá o número da ocorrência, por favor.
- Claro, é XXXX.
Tentei entender melhor a história. Argumentei que o valor apreendido não poderia estar no meu depoimento porque eu não sabia quanto o ladrão tinha. Meu depoimento diria apenas a minha versão da história. Mais tarde, meu primo me explicaria que o valor deveria estar expresso no auto de apreensão e não nos depoimentos. Me parecia improvável que o policial não soubesse disso.
- Mas você assinou o seu depoimento e o valor apreendido estava escrito lá. Não lembra?
A verdade é que eu não me lembrava ao certo de tão rápido que li o depoimento, louco para sair logo da delegacia e ir almoçar.
Providencialmente, a bateria do celular acabou. Só consegui ligar para o meu primo e passar o número da ocorrência cerca de meia hora depois. Em 15 minutos, ele retornou a ligação. "Falei com o tal do Ubiraci e acho que ele fez cagada mesmo, não é golpe não. Dá uma passada lá, assina o depoimento de novo e qualquer problema me liga".
Terminei meu compromisso de trabalho e pedi ao meu pai que me acompanhasse à delegacia para não ter de ir sozinho. Ele sugeriu que levássemos também meu primo. Quando entramos na DP, por volta das 10 da noite, eu e meu primo vestido de terno e gravata, ainda tive de ouvir:
- Ficou com medo de vir sozinho, foi?
- Não, ele é meu primo, estava aqui por perto e me deu uma carona - disfarcei.
Andrete e Café já haviam estado na delegacia e assinado seus novos depoimentos. O valor apreendido na verdade fora de 151 reais. Conferi novamente meu depoimento e assinei todas as vias. Assinei também outros documentos. Ubiraci tirou uma cópia do meu comprovante de depósito - algo que Pederneiras havia lhe dito ao menos três vezes para fazer à tarde, mas que ele havia esquecido. Apertei a mão do policial e voltei para o carro, onde meu pai nos aguardava. Já eram mais de dez da noite de um dia surreal.